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Ainda o BPN e o Insular

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José Oliveira e Costa, fundador do grupo Sociedade Lusa de Negócios, que integra o BPN e administrador deste último até há bem pouco tempo, foi detido na sequência das investigações da Operação Furacão - investigação em curso há quatro anos, com mais de 200 suspeitos identificados e dezenas de grandes empresas portuguesas implicadas - e constituído arguido por suspeitas de burla, branqueamento de capitais e fraude fiscal.
As perdas do BPN atingiram 700 milhões de euros e o grosso destas perdas faziam parte de uma contabilidade clandestina que escondia a ligação do BPN ao Banco Insular, em Cabo Verde. Com filial em Cabo Verde - Banco Português de Negócios SA (IFI) - e com a continuação das investigações… haverá repercussões por cá?

Alexandre O'Neill

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Final de tarde aproveitado para um prazer para o qual as oportunidades vão rareando: ler preguiçosamente no sofá. Entre coisas dispersa reli "Uma Coisa em Forma de Assim" de Alexandre O'Neill. Uma reflexão sobre Os Convencidos da Vida:
« Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista. Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?»

O Deus das moscas

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Os livros são como as cerejas. Vêm aos pares ou aos trios. Um puxa pelo outro. Nos últimos tempos deu-me para reler pela milésima vez “O Principezinho”, muito pela raposa, muito pelo rei, muito pelo vaidoso…
E de repente apetece-me reler o “Deus das Moscas”. Não sei porquê. Dou uma olhadela ao armário mas a confusão é tanta - mais um ano se passou sem as prateleiras - que desisto de procurar esta noite. Mas apetece e nem sei porquê. Esse livro sempre me inquietou, pela inevitabilidade que tem em si, pela condição humana a que nos reduz.

Todos os sonhos do mundo

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Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo

Show me the way to the next whiskey bar

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Tenho andado entretida numa actividade extremamente cansativa chamada nada e impossibilitada de actualizar o blog por outra chamada descansar. Uma SMS sobre Limpá Cabo Verde tirou-me da modorra e toca a dar uma volta na blogosfera cabo-verdiana que encontro entretida a distinguir a direita da esquerda ou será ao contrário?! Seria fácil dizer que esse debate não faz sentido dada a conversão universal ao capitalismo de mercado e seguir adiante trauteando a Demokransa hehe.

Mas os caminhos fáceis ou óbvios sempre me arrepiaram, algumas contradições deixaram-me perplexa e banzada a ausência da pergunta que fazia falta: é possível importar directamente para África o socialismo ou o comunismo ou o capitalismo ou o liberalismo? Não faltarão aí algumas condicionantes como tradições políticas e culturais, e a própria história económica e social? Sentidas desculpas àqueles que consideram a localização de Cabo Verde como uma casualidade geográfica infeliz hehe.

Essa é para mim a pergunta que faz falta. Mas, fala-se de esquerda e eu volto atrás no tempo como pede essa velha, velha, velha dicotomia política esquerda/direita (OK, dá-me para a música também…).

A afirmação referida pela MS do blog Retalhos era esta: "esquerda que sou (há no entanto quem me acuse de ser uma liberal empedernida no que toca a assuntos de economia)". Parece contraditório? Nem por isso mas vou completar, afinal Woody Allen disse: "Should I marry W.? Not if she won't tell me the other letters in her name." Pois deixa-me dizer as outras letras: esquerda socialista. Não leninista e daqueles que afirmam sem rebuço que o que desabou foi a interpretação do comunismo que foi posta em prática – mas afinal ninguém pregou melhor que Jesus e… os resultados estão há vista, em seu nome se queimaram livros e gente.

Esquerda socialista não leninista!? Isso não tem nada de espectacular! Pois não. Não tem nada de novo! Pois também não. Que queriam!!? A cisão leninista que se seguiu à revolução russa de 1917, originou o movimento socialista e é histórica (para não dizer fóssil) a diferença entre o socialismo socialista e o socialismo comunista, tanto no que respeita ao modo de transformação social como no modelo da sociedade socialista a erigir.
Remonta a tempos, em que eu ainda não passeava por este planeta, o abandono pelos partidos socialistas da ideia da economia socialista, baseada na socialização generalizada dos meios de produção enquanto sistema económico alternativo ao capitalismo – se não me falha a memória (e falha muito) o primeiro terá sido o SPD alemão, no congresso de Bad Godesberg (primo do Bob Geldof, ri-te Paaapoila, ainda te devo uma do Geldof hehe).

A queda do Muro de Berlim é um definitivo adeus Lenine (ao som de Pink Floyd) que não perturbou o socialismo democrático que sempre foi muito crítico do leninismo e do socialismo soviético. (Deu-me uma súbita vontade de reler “A Insustentável Leveza do Ser” pela enésima vez... será da Primavera de Praga?)


A nova declaração de princípios do PS francês (exemplo só porque é a coisa mais socialisticamente conservadora) não tem qualquer traço de socialismo económico, o que vale, hoje, é a economia ecologista e social de mercado. Globalmente falando não há (e há muito tempo) nenhum equívoco quanto a esse ponto. E, mais a mais, dizia um economista: Under capitalism, man exploits man. Under communism, it's just the opposite.

Deixando as divagações históricas. Sou esquerda socialista – não existe equivalência entre esquerda e socialismo – porque, continuo a acreditar nos direitos sociais, na inclusão social, na coesão social, na justiça social. Sou liberal porque liberal nos costumes e na economia; não empedernida (apesar das bocas) porque apesar de convertida à economia de mercado e à concorrência, apesar de reconhecer como irrecusáveis a disciplina monetária e financeira, o valor da segurança pública e a competitividade empresarial, fujo (sempre à última hora) do liberalismo radical seja na política fiscal, seja na política educativa ou de saúde, seja nas políticas afirmativas de igualdade…

Mas isto não é de esquerda nem de direita, apenas ditadura da lógica: sem bom desempenho económico e sem eficiência na gestão pública não há margem para políticas sociais de esquerda… por mera falta de dinheiro que não de vontade. Mero senso comum: para distribuir é preciso ter.

Pausa para aviso: não sou intelectual, sou simples, simplista e simplória. Mera consequência de uma juventude estouvada, dos neurónios só me ficaram o Tico e o Teco. Lembrem-se: é apenas a minha opinião, não se destina a mudar a de ninguém... e não me levo muito a sério porque a vida definitivamente não me leva a sério.

Continuando. Li há bem poucos meses uma entrevista de Slavenka Draculic, jornalista e escritora croata, ao “Público”, a propósito do seu livro “Não faziam mal a uma mosca” cujo final me faz doer a alma. “Para que foi tudo aquilo?” Destrutiva a resposta: “para nada.”

Nessa entrevista diz: "O socialismo falhou porque foi implantado em países demasiado atrasados. Como me disse uma vez Kenneth Galbraith, se o comunismo tivesse nascido na Suécia teria sido completamente diferente."(O Kenneth Galbraith é o da citação Under capitalism...)
E diz mais: “Com a excepção da Checoslováquia, nenhum destes países tinha tradição liberal. Passaram directamente do feudalismo para o socialismo.”

E estamos de volta à pergunta: como encaixar construções históricas que não nasceram do acaso – foram doídas e sofridas – em África ou neste nosso país?
Qualquer resposta levar-me-ia a Amílcar Cabral
… mas deixa para lá.

Antes que a Papoila tenha um ataque e diga que não aguenta mais posts sérios e que a Fau tenha de me proteger dos protestos comunistas da Isabel (pois Tété que saudades de uma madrugada regada com um capitalista Gordon`s e água tónica shewpss num terraço com vista para o Tejo discutindo política pelo prazer das palavras) termino e para terminar bem:

Swimming in a fish bowl, Year after year, Running over the same old ground.
What have we found? The same old fears.

Mia Couto - Venho brincar aqui no Português

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Este texto de Mia Couto – de seu verdadeiro nome António Emílio Leite Couto, é um dos
mais conhecidos, se não o mais conhecido dos escritores moçambicanos – intitulado
“Perguntas à Língua Portuguesa”, apesar de ter alguns anitos (é de 1997 ou 1998)
parece-me apropriado num momento em que tanto se discute o tal do acordo
ortográfico.

"Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram.
Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar
o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é
o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo.
Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida.
E quantas são? Se a Vida tem é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como
escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente,
nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia.
Nós estamos simplesmente ocupados a sermos.
Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância?
Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé?
Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações.
Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência
de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias.
Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que
dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a
gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas.
Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo,
um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros
tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém
sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
O mato desconhecido é que é o anonimato?
O pequeno viaduto é um abreviaduto?
Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação.
Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
Onde se esgotou a água se deve dizer: «aquabou»?
Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um
desmarço?
Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
Mulher desdentada pode usar fio dental?
A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: «finanças»?
Um tufão pequeno: um tufinho?
O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
Em águas doces alguém se pode salpicar?
Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina.
Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia.
Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós.
Colocámos essoutro português - o nosso português - na travessia dos matos,
fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente
."

Pensamentos

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Tenho estado a pensar no que postar.
Reparem bem na frase.
Pensar! Pelas estatísticas médicas restam-me dois neurónios, o Tico e o Teco; os outros foram-se com as directas, o tabaco, o álcool e outras coisas que não vale a pena falar. Aqueles dois, quando não estão de fim-de-semana estão de férias enquanto a língua, essa, faz horas extraordinárias. Mas cá estou eu a pensar, ou julgo que sim!!!
No que postar! Antigamente os escritores escreviam porque tinham algo para dizer, agora escrevem para descobrir se têm alguma coisa a dizer (Li esta algures, parece que é do John D. Barrow, não sei se é o mesmo de “A mão esquerda da criação” ou melhor dizendo do umbigo de Adão) e eu escrevo para descobrir se tenho alguma coisa para postar!!!!
E descubro que não.
Vou é procurar no armário (há três anos que os livros aguardam que mande fazer as prateleiras) a “Mão esquerda da Criação”, já gostei muito desse livro. Só me lembro do umbigo. Adão deve ser representado com ou sem umbigo? Com umbigo, torna-se humano, com mãe (para os distraídos: Adão é uma criação de Deus). Sem umbigo não seria um homem completo. Mas há mais no livro desse matemático (hehe pensavam que era teólogo?) que me faria bem recordar. Talvez pusesse o Tico e o Teco a trabalhar para variar! Talvez descobrisse o que postar!